ROMANOS 9 NA PERSPECTIVA ARMINIANA | PARTE 1
ROMANOS
9 NA PERSPECTIVA ARMINIANA
O capítulo 9 do livro de Romanos é um texto obscuro para muitos cristãos, pois seu conteúdo é de
difícil interpretação, haja vista as numerosas declarações que aparentemente
revelam um Deus que usa os homens como fantoches no palco do universo.
O
capítulo 9 do livro de Romanos tem sido alvo de grandes debates entre teólogos
calvinistas e arminianos. Os exegetas calvinistas têm interpretado o capítulo 9
de Romanos através de pressupostos deterministas, cuja base de sua hermenêutica
tem sido a vontade soberana, predeterminante e irresistível de Deus que faz com
que tudo o que acontece na história da humanidade seja resultado único de sua
vontade determinativa.
Assim
sendo, para os calvinistas, Deus elegeu incondicionalmente tanto os salvos quanto
os réprobos e esta eleição não pode ser resistida pelo homem. Esta doutrina é
chamada de dupla predestinação, pois, segundo Calvino, Deus elegeu soberana e
incondicionalmente tanto aqueles que seriam salvos pela graça, quanto aqueles
que seriam condenados ao inferno.
Não
obstante, para os calvinistas, tanto o destino dos eleitos para salvação,
quantos o destino dos réprobos (eleitos para a perdição), foram determinados
por Deus sem que Deus levasse em conta suas ações ou práticas, ou seja, os
eleitos para salvação são escolhidos por Deus independentemente de sua vontade
ou escolha livre, e os réprobos irão para o inferno não por causa de suas obras
pecaminosas, mas, sim, por causa da vontade predeterminante de Deus que os
destinou a praticarem as más obras e a sofrerem no inferno. A isso, o
calvinismo chama de eleição incondicional.
Vejamos algumas citações do teólogo reformado João Calvino, em suas institutas, sobre a doutrina da dupla predestinação incondicional:
“Chamamos predestinação o eterno decreto de Deus pelo qual houve por bem
determinar o que acerca de cada homem quis que acontecesse. Pois ele não quis
criar a todos em igual condição; ao contrário, preordenou a uns a vida eterna;
a outros, a condenação eterna. Portanto, como cada um foi criado para um ou
outro desses dois destinos, assim dizemos que um foi predestinado ou para a
vida, ou para a morte” (Institutas, vol. 3, cap. 21, seç. 5).
“[...] a Escritura mostra claramente: que designou de uma vez para sempre,
em seu eterno e imutável desígnio, àqueles que ele quer que se salvem, e também
aqueles que [Deus] quer que se percam” (Institutas, vol. 3. cap.21. seç.7).
“Venham todos os
filhos de Adão; contendam e alterquem com seu Criador por que antes mesmo de
serem gerados foram predestinados à perpétua miséria por sua eterna providência” (Institutas, vol.
3. cap. 23. Seç.3).
“Sem dúvida confesso
que foi pela vontade de Deus que todos os filhos de Adão nesta miserável
condição em que ora se acham enredilhados. E isto é o que eu dizia
inicialmente: por fim, tem-se sempre de volver ao mero arbítrio da vontade
divina, cuja causa está escondida nele mesmo”. (Institutas, Vol. 3. cap. 23.
Seç. 4).
“O primeiro homem, pois, caiu porque o Senhor assim julgara ser conveniente. Porque ele assim o julgou nos é oculto. Entretanto, é certo que ele não o julgou de outro modo, senão porque via daí ser, com razão, iluminada a glória de seu nome”. (Institutas, Vol. 3. Cap. 23. Seç. 8).
Em
todo caso, para o calvinismo, tantos os eleitos quanto os réprobos estão sendo
estrita e irresistivelmente obedientes a Deus, pois os eleitos praticam boas
obras porque Deus os predeterminou a agirem assim, por outro lado, os réprobos
praticam obras pecaminosas porque Deus, também, os predestinou a agirem desta
forma. Na visão calvinista, especialmente a de linha supralapsariana, tantos os
eleitos quanto os réprobos fazem a vontade de Deus. Esta é, panoramicamente, a
forma como os calvinistas interpretam Romanos 9.
Contudo,
esta não é a única forma de interpretar Romanos 9. O Arminianismo, através de
Jacob Armínio, surge na história do protestantismo como um movimento de
impugnação as doutrinas calvinistas, propondo uma hermenêutica diferente da
calvinista e, não obstante, validamente bíblica.
Para o
arminianismo, o “Deus” do calvinismo era estranho àquele revelado pelas
Sagradas Escrituras. Armínio sustentava que Deus, aquele revelado pela Bíblia,
sempre desejou salvar todos os homens e que sempre estabeleceu uma relação
sinergista com a humanidade. Deus jamais desejaria que o homem praticasse atos
pecaminosos, muito menos os predestinariam incondicionalmente a estas práticas
condenáveis, antes, Deus sempre desejou que todos os homens fossem salvos e,
por conseguinte, vivessem em harmonia com seu criador.
Cada
vez que Armínio olhava para a Bíblia e, concomitantemente, para as institutas
de Calvino, percebia que o calvinismo havia ido longe demais com sua
soteriologia extremamente determinista.
Vejamos
o que Armínio compreendia sobre a eleição:
“Não é
uma afirmação verdadeira a de que “dos homens, considerados em puris
naturalibus (quer esteja sem as coisas sobrenaturais, ou com elas) Deus
determinou, pelo decreto da eleição, elevar alguns homens em particular à
felicidade sobrenatural, mas deixar a outros em seu estado natural”. E é
impensado afirmar que ‘diz respeito à relação ou à analogia do universo que
alguns homens sejam colocados à direita e outros à esquerda, como é o método
que o Edificador mestre exige; ou seja, que algumas pedras sejam colocadas do
lado direito, e outras do lado esquerdo de uma casa que deve ser edificada’”. (AS OBRAS DE ARMÍNIO, VOL. 2).
“Tal
doutrina da Predestinação [incondicional] é contrária à natureza do homem, pelo
fato de o homem ter sido criado à imagem de Deus em conhecimento e justiça
[...]; Esta doutrina é inconsistente com a imagem divina, que consiste no
conhecimento de Deus e da sua santidade [...]; Esta doutrina é incompatível com
o livre-arbítrio, no qual e com o qual o homem foi criado por Deus [...]; Esta
predestinação também se opõe à natureza da condenação eterna, e aos apelos
pelos quais é descrita nas Escrituras [...]; Esta doutrina é igualmente
repugnante à natureza da graça divina [...]; A doutrina da Predestinação é prejudicial
à glória de Deus [...]; Esta doutrina é altamente desonrosa a Jesus Cristo,
nosso Salvador [...]”. (AS
OBRAS DE ARMÍNIO, VOL 1).
Para
Armínio a interpretação calvinista da Eleição e predestinação era muito
simplista e atentatória à justiça, bondade e amor de Deus.
Armínio
percebeu que a relação entre Deus e o homem não era, segunda a Bíblia,
impositiva, mas, sim, baseada na possibilidade de escolher se relacionar, ou
seja, Deus, por sua vontade soberana, decidiu condicionar a salvação do homem a
sua livre escolha, após a ação da graça, de decidir se relacionar com Deus ou
não. A fé, neste ponto, exerce um grande papel, haja vista que esta fé é a
causa instrumental da salvação do homem, ao passo que Cristo é a causa
meritória da salvação do pecador.
Desta forma, o arminianismo clássico entende que a eleição é condicional e realizada pela presciência de Deus, ou seja, Deus elegeu somente aqueles que haveria de ser salvos e, para tanto, salvou somente aqueles que livremente creram e perseveraram na fé até o último dia de suas vidas. O critério de Deus para eleger foi a previsão de fé, sendo, portanto, eleito aqueles que exerceram livremente fé em Cristo e perseveraram nesta fé.
Pb. Diego Natanael
Leia a segunda parte:
https://www.teologiacetap.com/2024/09/romanos-9-na-perspectiva-arminiana.html
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